Eu queria, mas tenho namorado…

Rondando pela internet, me deparei com texto bastante interessante sobre essas respostas emblemáticas e cheias de conteúdo estereotipado, como a clássica “eu queria, mas tenho namorado…”.

Menina-com-dúvidas

Em 2008, uma colega da faculdade, que vou chamar de X, apresentou ao grupo o novo namorado dela, o Z. X estava feliz por ter encontrado um cara apaixonadíssimo por ela, que estava disposto a “tudo” por ela. Parece o sonho de qualquer pessoa, não?

Final do curso chegando, começaram as rodadas de despedidas, festas, sítios de final de semana, bares e baladas. X sempre aparecia com o namorado Z. No começo, não dei muita atenção.

Um dia chamamos X para um jantar “só de meninas”. E ai veio a bomba: “eu queria, mas tem o Z”. Ficamos sem entender qual era a correlação entre querer ir e a existência de Z. Foi ai que ela explicou: X e Z fizeram um “acordo” no início do namoro de que só sairiam juntos. Isso já foi suficiente para deixar todo mundo chocado, mas não acabou por aí: X achava isso incrível.

O que isso quer dizer? Algumas possibilidades:

1. Nosso relacionamento é uma prisão

O relacionamento de X e Z deduz um contrato silencioso de posse e presença nos horários combinados como símbolos de fidelidade e atenção – mesmo que o sentimento de posse, exagerado, seja uma das principais raízes do processo de aversão ao outro e, eventualmente, infidelidade. X e Z acreditam que um relacionamento é uma constante de ansiedade, expectativas e cobranças. X precisa estar em todos os eventos sociais de Z e Z precisa estar em todos os eventos sociais de X. O casal vive sem surpresas, sem algo de diferente para compartilhar com o outro, em uma “bolha”.

2. Eu perdi minha identidade

Esse relacionamento é um encosto padrão pra tantas pequenas respostas que constituem a identidade de X , que ela já se esqueceu de seus reais desejos, preferências e escolhas. Às vezes ela acaba por fazer coisas sem vontade, às vezes as faz para demonstrar algo, às vezes nem sabe o que está fazendo. X acredita na máxima de que um relacionamento é sobre duas metades que, ao se encontrarem, se torna um inteiro e, com isso, acabou por se perder de quem ela era antes do relacionamento. X nem sequer se lembra das escolhas que fazia, do que ela gostava e de como ela era antes de Z. X acredita que se perder de si mesma é parte de um relacionamento.

3. Eu minto socialmente com base em argumentos sexistas

X mentiu sobre a razão que a fez não querer ir ao jantar com as amigas. Pode ser que X esteja só com preguiça, ou não goste do tipo de comida do restaurante, ou simplesmente não se interessa por esse tipo de encontro, mas ao invés de dizer a verdade, o ato reflexo é usar um argumento mais gasto que sarjeta da Rua Augusta, reforçando a ideia de “namorado controlador” e “namorada comportadinha”.  Pode ser que o namorado de X nem se importaria, mas ela prefere pensar que ele ficaria possesso e usar isso como instrumento para, a longo prazo, culpá-lo por sua própria infelicidade. Assim a reciprocidade nociva do ciúme tem todo o espaço de que precisa pra se instalar, sem pressa. X vai mantendo esse auto-engano ao colocar a responsabilidade pela sua felicidade no colo de Z, para depois poder dizer que “Z não é a mesma pessoa por quem ela se apaixonou”, quando, na verdade, foi a própria X que não foi honesta com suas vontades.

E aí, qual é a sua desculpinha esfarrapada no circo dos relacionamentos?

Postado por: Rafaella Duarte

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10 comentários sobre “Eu queria, mas tenho namorado…

  1. Tô um pouco mais otimista em relação a isso. Pelo menos as relações que tive e que observo, entre pessoas mais maduras, não comportam mais esses acordos sem sentido. Vejo mais entre jovens de pouca idade. Tomara que seja mesmo coisa que passa com o tempo! 🙂

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  2. Credo, hahaha. Se me chamarem pra sair e acontecer algo do tipo, com certeza a relação não terminaria. Se tem algo que valorizo muito é liberdade. Não necessariamente aquela que a gente faz o que quiser, aquela do bom senso, né?

    Saindo um pouco do assunto, e aquelas pessoas que começam a namorar e simplesmente param de falar com todo mundo? Que atitude infantil! Só porque está namorando, não quer dizer que conversar com outras pessoas, ou mesmo cumprimentar elas, seja uma atitude infiel ou “whatever”. Vai entender.

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    • Fernando, infelizmente bom senso é um conceito individual, e um dos principais causadores de problemas em relacionamentos. O meu bom senso é diferente do bom senso do outro, então eu posso fazer uma coisa que eu acho “ok” mas que não é ok para o outro. A mesma coisa do outro lado.
      O ponto que vc mencionou sobre as conversas é justamente o que eu falei sobre alinhamento. Se vc não pergunta expressamente para o outro se isso o incomoda, como vc pode ter certeza que o outro vai estar “ok” com isso?
      Relacionamentos são sobre alinhamento de expectativas, uma vez que isso acontece, a chance de dar tretas é bem menor 🙂

      Curtido por 1 pessoa

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