O tempo das coisas sérias (e sobre os caras que eu queria ter amado)

Lembra de todas as vezes que você reclamou por querer um namoro, um rolo, um alguém-pra-chamar-de-seu e sua mãe/tia/avó/amiga-conselheira te disse “tudo acontece no seu tempo, na hora certa vai aparecer um alguém”? Pois é. Não adianta a gente querer insistir em encontrar esse alguém a todo custo ou insistir nas pessoas que estão em tempos diferentes. Existe uma linha tênue entre paixão e teimosia. Enquanto a paixão, que consequentemente dará espaço ao amor no futuro, é muito sobre a vontade de duas partes, a teimosia é uma briga de um lado só, um ego inflado clamando aos quatro ventos “EU QUERO SER AMADO”.

e07fb81bf4e9b9d6037d9534720e7f54

Conheci um cara por acaso, num bar perto do escritório. Entre cervejas e olhares, me aproximei para descobrir quem era aquele-cara-que-não-parava-de-me-olhar, conversamos uns minutos, trocamos telefones, demos risada, surgiu uma faísca e a vontade de se ver de novo.

Encontro atrás de encontro, um beijo, outro beijo, uma noite, outra noite, e fomos nos incluindo na rotina um do outro, compartilhando interesses e criando laços. “Bora ver aquele filme bacana que estreou essa semana?” “Abriu um bar novo tipo aquele que você adora, vamos lá no final de semana?” “Olha o review desse livro, acho que você ia curtir!”

A gente passou a se conhecer, de pouquinho em pouquinho, e estava gostoso e divertido, livre e sem amarras. De repente, ele parecia estar a espera de uma “evolução natural”, o que é uma expectativa padrão da sociedade: as pessoas se conhecem, saem algumas vezes, começam a namorar, depois a coisa fica “séria”. Mas eu nunca quis nada “sério”.

Não me entendam mal: não é que eu estivesse brincando com o rapaz. Só não era o timing certo para aquilo acontecer e minha vida naquele momento não tinha o espaço que um relacionamento “sério” precisa e merece. Às vezes é difícil sermos sinceros uns com os outros em admitir que “tá legal, mas não vai muito mais longe do que isso, eu só trouxe mala para esses poucos dias, preciso voltar para onde eu estava”.

Quando a gente não está ali, com os ponteirinhos exatamente alinhados com os os ponteirinhos do relógio do outro, não adianta querer ajustar, adiantando ou atrasando as coisas: ou vocês estão no tempo certo para fazerem aquilo acontecer ou não estão.

Eu poderia contar pelo menos uma mão de pessoas legais que eu já conheci e que eram incrivelmente interessantes e apaixonantes, mas que estavam em tempos diferentes do meu. Às vezes você pensa até em parar teu relógio para dar espaço pra aquela história acontecer, mas depois você vai ver todas as outras coisas que estavam no “tempo certo” entrando no trem da tua vida e indo embora enquanto você decidiu ficar na estação.

Entre Pedros, Franciscos, Marcelos e Josés, me deparei com vários caras que eu queria ter amado, que eu queria ter tido um pouquinho mais de tempo, um pouquinho mais de fôlego, um pouquinho mais de paciência para que abrir uma brechinha na minha vida para aquela coisa nova, aquela coisa que eu tanto quero, aquele conforto e acalento, mas que não cabe numa vontade.  

Amor, no fim das contas, não é uma escolha, é um acontecimento, um evento, uma festa. A gente não convida o outro para vir amar com a gente, ele simplesmente vem. E às vezes ele chega e a casa tá vazia, as luzes tão apagadas e você tá vestindo seu pijama num momento-netflix-leave-me-alone.

É importante termos a sensibilidade de entender que nem todo mundo que abre a porta de casa pra gente quer que a gente faça morada lá. Assim como tem pessoas que nos visitam e, por mais incríveis que sejam, precisam ir embora num determinado momento. Seja porque você tem outras prioridades no momento, ou porque o outro só quer estar sozinho mesmo. Pode parecer loucura dizer “não” a uma paixão, mas a loucura de cada um é sagrada.

Fonte da imagem: Tommy Ingberg
Anúncios

11 comentários sobre “O tempo das coisas sérias (e sobre os caras que eu queria ter amado)

  1. Me identifiquei muito com o texto, essa coisa de querer um relacionamento a qualquer custo acaba por nos trazer mais prejuízos do que benefícios emocionais.

    Curtir

  2. A pressão antropologicamente institucionalizada de que precisamos “acrescentar lenha nessa fogueira alcunhada de humanidade” às vezes impede que vivamos.
    Parafraseando a filosofia de Manuelle Leite, “o coração dos outros continuará sendo terra que ninguém pisa” enquanto aqueles que se julgam donos não a cultivarem com o desvelo adequado.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s